Valuations comprimidos no Brasil impulsionam onda de fechamentos de capital

Valuations comprimidos e volumes de negociação estagnados estão levando um número crescente de empresas a fechar seu capital no Brasil, reduzindo ainda mais o peso do país nos portfólios globais de ações.
A bolsa de valores B3 SA registrou o fechamento de capital de 33 empresas desde 2024, segundo dados compilados pela Bloomberg. Ao menos seis novas ofertas públicas de aquisição já foram anunciadas, incluindo as de Banco Santander Brasil SA, Companhia Brasileira de Alumínio SA e Helbor Empreendimentos SA.
Banqueiros de investimento, investidores e executivos da B3 atribuem esse movimento a diversos fatores. O principal deles são as taxas de juros persistentemente elevadas no Brasil. Com a Selic acima de 10% desde 2022, há poucos incentivos para enfrentar a volatilidade do mercado acionário. A instabilidade decorrente da guerra no Oriente Médio e o boom de inteligência artificial nos Estados Unidos e na Ásia também são apontados como fatores que vêm desviando recursos do país.
“O mercado acionário brasileiro vem atravessando um período particularmente desafiador”, afirmou André Milanez, diretor financeiro da B3, em entrevista. As eleições presidenciais do próximo mês representam uma complicação adicional, acrescentou.
“Naturalmente, os participantes do mercado preferem aguardar antes de tomar decisões”
Somando se às dificuldades, o pipeline de ofertas públicas iniciais de ações no Brasil permanece praticamente vazio há anos. Em maio, a Compass SA tornou se a primeira empresa a realizar um IPO desde 2021, e banqueiros afirmam que não há expectativa de que outras empresas façam sua estreia na bolsa neste ano.
Aquisições também explicam parte dessa tendência, segundo Fabio Nazari, responsável por Equity Capital Markets do Banco BTG Pactual SA. De acordo com a legislação brasileira, quando um novo acionista assume o controle de uma companhia, deve realizar uma oferta pública para adquirir as ações dos acionistas minoritários nas mesmas condições.
Esse é o caso da Companhia Brasileira de Alumínio, que está sendo adquirida pela chinesa Chinalco e pela Rio Tinto. O Santander Brasil, cujos múltiplos de valuation estão em mínimas históricas em relação à controladora espanhola, será objeto de uma oferta pública por meio de uma troca de ações, prevista para o primeiro semestre de 2027. O BTG realizou a aquisição das ações em circulação de sua subsidiária Banco Pan em janeiro. O Grupo Indiana está incorporando sua subsidiária Neogrid, uma empresa de tecnologia e software, enquanto a companhia imobiliária HBR Realty Empreendimentos Imobiliários SA está incorporando a Helbor Empreendimentos SA como subsidiária e retirando suas ações da bolsa.
“Se uma ação está sendo negociada abaixo do valor patrimonial, o melhor uso do capital do acionista controlador é comprar a participação detida pelo mercado, que deixou de ser um bom parceiro”, afirmou Daniel Wainstein, sócio fundador da boutique de investment banking Seneca Evercore. “Uma cotação baixa impede a empresa de captar mais capital via emissão de ações e, ao mesmo tempo, permanecer como uma companhia aberta exige uma quantidade enorme de trabalho”.
Claudia Mesquita, responsável por Equity Capital Markets no Brasil no UBS BB Investment Banking, vê os fechamentos de capital como “uma consequência natural” do boom de 2020 e 2021, que levou à bolsa “emissores em diferentes estágios de maturidade”.
A negociação de ações brasileiras diminuiu significativamente desde o pico de 2021, com o volume financeiro médio diário caindo quase 32%, para R$ 20,7 bilhões, ou US$ 4 bilhões, em 2025, segundo dados da B3. Os volumes se recuperaram neste ano, antes das eleições e com investidores estrangeiros diversificando suas posições para fora dos Estados Unidos, atingindo uma média de R$ 26,8 bilhões até julho, mas permanecem abaixo dos níveis observados durante o período de boom.
A redução no número de empresas listadas mantém os investidores concentrados em um pequeno grupo de ações com elevada liquidez, que tende a gerar apenas retornos medianos, afirmou Christian Keleti, CEO da Alpha Key Capital.
“Como os gestores de recursos têm os mesmos nomes em seus portfólios, eles perdem sua vantagem competitiva”, afirmou Keleti.
Tendências semelhantes vêm ocorrendo nos principais mercados da América Latina. O número de empresas listadas no México e na Colômbia caiu cerca de 3% desde 2024, enquanto, no Chile, a queda foi de 1,6%, segundo dados das bolsas compilados pela Bloomberg. Mercados menores, como Argentina e Peru, registraram crescimento de pelo menos 3,7% no período.
No Brasil, a queda foi mais acentuada, de 9%.
“A onda mais recente de fechamentos de capital é um fenômeno mais brasileiro, porque os valuations aqui estão mais comprimidos”, afirmou Bruno Saraiva, co head de investment banking no Brasil e responsável por Equity Capital Markets para a América Latina no Bank of America.
As ações brasileiras vêm sendo negociadas há anos a valuations inferiores aos da maioria dos pares latino americanos. Atualmente, são negociadas a 8,88 vezes o lucro estimado, aproximadamente 26% abaixo da média regional e cerca de 11% abaixo de sua própria média dos últimos dez anos.
Os valuations baixos atraíram investidores estrangeiros no início de 2026, mas esse fluxo rapidamente se reverteu quando a guerra no Irã provocou uma disparada dos preços do petróleo e uma reprecificação das expectativas para as taxas de juros globais. Os investidores locais continuam retirando recursos do mercado, com os fundos de ações registrando saídas líquidas de R$ 8,15 bilhões neste ano até agosto.
“Há um sentimento generalizado de frustração e decepção em relação ao Brasil”, afirmou Marcelo Millen, responsável por Equity Capital Markets para a América Latina no Citigroup.
“Havia uma expectativa de chegar ao fim do ano com taxas de juros mais baixas, mas isso não vai se concretizar”.
As perspectivas para IPOs neste ano parecem mais favoráveis em outras partes da América Latina. A argentina YPF Energia Eléctrica SA e a Genneia SA protocolaram pedidos para realizar ofertas nos Estados Unidos, com dupla listagem também na bolsa local. O mercado acionário “ignorado” da Colômbia pode ganhar impulso com um novo governo, afirmou Millen, enquanto as taxas de juros mais baixas e a inflação controlada no Chile colocam o país na posição “mais favorável” da região.
Publicado em 15/09/2026 e disponível em:




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