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Lula não mostrou disciplina fiscal, mas sinal de Flávio aos cortes não é claro, diz co-CEO da Seneca

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Seneca Evercore | Notícias
há 2 dias
7 min de leitura

Para Daniel Wainstein, efeito dos juros na vida das pessoas é similar ao da inflação na década de 90, mas eleitores não percebem com clareza esse impacto em seu dia a dia e, por isso, candidatos não devem tratar do tema na campanha


A Seneca Evercore lida com empresas em diferentes frentes: fusões e aquisições (M&A), reestruturação de dívidas, emissão de papéis de dívida (como certificados de recebíveis) e de ações. Negociou R$ 25 bilhões em M&As nos últimos cinco anos e emitiu R$ 2 bilhões em operações de dívidas nos últimos 12 meses. Com os negócios em alta, acaba de comprar um banco. Porém, em todas as áreas, diz Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca, os juros altos por um longo período têm tido um impacto nocivo sobre os clientes.


“O Brasil não aguenta mais um ano com essa taxa de juros”, diz ele. “O empresário não aguenta.”


Para ele, o presidente Lula e o candidato pelo PL, Flávio Bolsonaro, estão disputando cabeça a cabeça as eleições 2026 e nenhum dos dois deve sinalizar uma arrumação nas contas públicas até o pleito. Por isso, diz Wainstein, o mercado estará atento aos primeiros 100 dias de governo, quando tentará entender e se posicionar em relação à disciplina fiscal.


Ele diz não saber se Lula quer ser lembrado como o pai dos pobres ou como o governo que apertou o ajuste fiscal e colocou a economia nos eixos. Sobre Flávio, o tema deve continuar sem apelo, por ser impopular. Porém, talvez seja mais efetivo nessa frente.


Enquanto isso, população e empresas continuarão sofrendo com os efeitos dos juros altos. Segundo ele, esse impacto é tão negativo quanto o da inflação, antes da implantação do Plano Real. “A população está empregada, mas seu nível de renda é muito baixo”, afirma.


Leia, a seguir, trechos da entrevista:


Como o sr. está vendo o cenário eleitoral?


Hoje, é 50% a 50% (as chances de Lula ou Flávio Bolsonaro vencerem as eleições). Normalmente, a gente fala que o presidente tem vantagem na disputa, mas o momento está longe de ser auspicioso para o incumbente. Se, na pandemia, com tudo aquilo que aconteceu e quando não tínhamos uma administração exatamente primorosa, o cenário já foi de praticamente 50-50, hoje, quando a economia não está muito bem, as empresas e os consumidores estão sofrendo muito, e a taxa de juros está alta, o governo atual está longe de ser popular. Mais do que nunca, o Flávio ou o Lula vão vencer no fotochart (sistema de fotos que determina o vencedor em competições esportivas muito apertadas).


Há alguma expectativa do mercado?

O mercado tem a expectativa de mais disciplina fiscal. Existe um debate muito pobre em termos de agenda econômica, mas o sentimento é de que a gente precisa de rigor fiscal muito maior, porque o grande imposto que a gente tem, que no passado foi a inflação, hoje é a taxa de juros. Não temos uma inflação alta, mas, por outro lado, esses juros reais, da forma que estão, inibem a iniciativa privada e sufocam as empresas. O faturamento dela cresce com a inflação sobre o preço dos bens, e o passivo, ou a dívida, cresce pelos juros. A maioria das empresas está lidando com uma inflação de 4%, 5% e, por outro lado, pagando 20%, 25% no seu passivo. A cada ano que passa, a situação vai ficando pior. Vemos isso nos números de pedidos de recuperação judicial. Isso ainda não se refletiu na estatística de desemprego, mas, na prática, a renda disponível é cada vez menor, justamente porque o consumidor também paga seus juros nesse nível. O cenário eleitoral que a gente vê hoje me parece o de alguma esperança de que pode haver alguma disciplina fiscal maior.


Independentemente de quem ganhe?

É mais difícil ver isso na continuidade do PT. Essa gestão não deu nenhum indício de disciplina fiscal durante o governo Lula, e os atos falam mais alto que as palavras. Existe alguma esperança de que algo que não seja o que está posto possa ser melhor. Mas é mais torcida do que algo concreto, porque o próprio discurso do Flávio Bolsonaro ainda não é tão evidente quanto à disciplina fiscal. Não é popular falar desse tema, mas deveria. Porque, hoje, o grande imposto da população são os juros reais.


Para a população, os juros hoje são a inflação lá de trás?

Exatamente isso — e afeta a todos indiscriminadamente, mas aqueles mais alavancados são os que mais pagam e os que menos podem. O que temos hoje, basicamente, é uma situação na qual investidores financeiros, que representavam cerca de 25% do volume de fusões e aquisições no Brasil em 2019, se tornaram menos de 6% este ano.


Qual é o motivo?

Primeiro, a economia não cresce de forma entusiasmante. Depois, a alternativa dos fundos de investimentos de private equity (que compram participações em companhias privadas, fazem-nas crescer e vendem-nas com lucro) para sair das empresas em que investiram os IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) — não existe há um bom tempo. Já tem mais de cinco anos que a gente não tem uma janela real de IPOs, e os que foram feitos performaram muito mal. A tendência de abertura de nova janela é cada vez mais remota. Em terceiro, o modus operandi de private equity, em qualquer lugar do mundo, é por meio de alavancagem (usar recursos emprestados). Com os juros que estão aí, essa estratégia não funciona. Esses fundos acabaram tendo desempenho ruim de maneira geral, não conseguiram levantar mais capital e os internacionais acabaram saindo do Brasil.


Por que esse termômetro de fusões e aquisições é importante?

Ele mostra, de certa forma, a descrença dos investidores em relação a esse modelo de negócios. Também a descrença do investidor financeiro de que a taxa de juros básicos vá cair e de que a economia vá voltar a crescer. As empresas, sufocadas por uma taxa de juros tão alta, vivem a bola de neve que a gente está vendo hoje. O lado bom é que o investidor estratégico não financeiro continua tendo interesse no Brasil. Tenho visto principalmente a China extremamente interessada em ativos no Brasil, bem como investidores do Oriente Médio, do Japão. A Ásia parece que descobriu realmente o Brasil, enquanto os Estados Unidos estão com a relação altamente estremecida conosco. Mas, no momento em que as empresas não podem crescer, em que o consumidor não consegue consumir, a economia não cresce. Aí, cada vez mais, a disciplina fiscal se torna fundamental, o início de um ciclo virtuoso que a gente não vê acontecendo no curto prazo.


Uma sinalização dos candidatos bastaria para mudar essa trajetória?

Há ceticismo no mercado. O governo atual passou quatro anos fazendo o oposto. É difícil Flávio Bolsonaro sinalizar algo nesse sentido porque não soa popular. No início de 2027, o mercado vai estar extremamente atento às medidas que o governo vai tomar nos primeiros 100 dias, para poder avaliar o quanto realmente o governo tem ou não compromisso com essa agenda.


Há uma consciência de que esse problema fiscal é tão grave quanto foi a inflação lá atrás, na época do Real?

Não. O governo sabe, os empresários sabem, mas a população em geral está sofrendo com os juros, mas não é o mesmo impacto de ir ao supermercado e perceber que o preço subiu da noite para o dia. A população está empregada, mas seu nível de renda é muito baixo.


O sr. enxerga uma crise como a do governo Dilma no horizonte?

O Brasil não aguenta mais um ano com essa taxa de juros. O empresário não aguenta. No momento em que levar ao desemprego, pode ter realmente uma situação insustentável. A história diz que, quando falta renda mínima para a população ter um nível mínimo de subsistência, é quando há momentos disruptivos. O próximo governo precisa, desde o início, dar uma sinalização forte e agir para que a gente tenha uma situação minimamente sustentável para o empresário e, consequentemente, para o País como todo.


O sr. vê alguma chance de terceira via?

Não, não se consegue emplacar alguém que seja uma terceira via no cenário de hoje, infelizmente.


Caso Flávio vença, o sr. vê algum risco institucional?

No passado recente, a gente teve risco institucional. Quando o Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), conta em detalhes sobre a tentativa de golpe (no livro “Eu disse não: uma trincheira antigolpista”, que acaba de ser lançado), não tem por que desacreditar. É tapar o sol com a peneira, acreditar que a gente não teve risco de dissolução institucional. O 8 de janeiro foi um flerte muito grande com a disrupção. É inevitável lembrar do que aconteceu nas estradas no momento da eleição. Há risco de ruptura institucional, mas acredito ser baixo; nem existe uma precificação em relação a isso no mercado. É algo que pode ser considerado remoto, mas atribuir isso a zero é complexo.


Caso Lula seja eleito, ele vai querer deixar um bom legado?

O que é deixar um legado bom? Ser lembrado como o pai dos pobres? Ou como o governo que apertou o ajuste fiscal e conseguiu colocar a economia de volta nos eixos? Não sei exatamente como ele quer ser lembrado. Talvez ele acredite que possa adiar essa bomba-relógio e, basicamente, continuar tendo gastos do governo para medidas que a população precisa. Infelizmente, agora é preciso adotar medidas compatíveis com o Orçamento. A gastança que vemos hoje é incompatível com nossa situação fiscal.


Como o sr. tem visto o cenário internacional?

É muito difícil o Brasil manter sua posição histórica de neutralidade (nas relações diplomáticas), de certa forma, no momento geopolítico atual. De toda forma, o Brasil continua tendo um grande mercado consumidor, sendo um grande produtor de commodities e tendo potencial para investimentos em infraestrutura, no agro, na mineração, na energia... O Brasil continua sendo um lugar de interesse estratégico no mundo e interessa ao investidor internacional, especialmente chinês. Mas a situação mundial é de uma volta à Guerra Fria e com alta volatilidade no preço dos ativos.


Como o sr. está posicionando os negócios?

A gente acredita tanto no Brasil que estamos comprando um banco. Nosso negócio está indo surpreendentemente bem porque as empresas em dificuldade precisam fazer algo. Seja vender parte de seus negócios, seja renegociar ou alongar dívida, a gente acaba trabalhando na busca de uma solução. O estrangeiro quer vir para o Brasil, precisa de um assessor. O mercado de crédito está sofrendo, mas tem áreas, como o Minha Casa, Minha Vida, em que a gente tem trabalhado bastante. Ainda há bolsões geográficos no País que têm demanda reprimida por moradia, e o setor imobiliário é uma ilha que precisa de muito financiamento. No País existe hoje uma dinâmica de rouba-monte, em que os grandes bancos perdem participação para casas como a Seneca e outros independentes, seja no crédito, seja na gestão patrimonial, em cartões de crédito ou outros segmentos de serviços financeiros.


Publicado em 10/09/2026 e disponível em:

 
 
 

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