Tensão geopolítica leva chineses e investidores do Oriente Médio a ampliar apostas no Brasil

Com a retração de fundos de private equity, investidores estratégicos da China e do Oriente Médio buscam oportunidades no Brasil, atraídos pelo potencial de crescimento e estabilidade econômica.
A volatilidade trazida aos mercados pela guerra no Oriente Médio e as restrições comerciais impostas pelo governo norte-americano contra a China estão impactando os negócios de fusões e aquisições no Brasil, aumentando o número de investidores estratégicos da China e do Oriente Médio que buscam empresas no País e na América Latina.
“Estamos vendo a substituição dos fundos de private equity (que compram empresas) pelos estratégicos e um interesse de investidores da China, por uma questão geopolítica e de tamanho do mercado brasileiro, enquanto Japão e Oriente Médio voltaram a ter grande interesse”, diz o co-CEO do Grupo Seneca, Daniel Wainstein. Esses fundos vêm perdendo espaço nas operações de fusões e aquisições, pressionados pelos juros altos e pela falta de IPOs, que dificulta a saída dos investimentos.
Segundo Wainstein, a retração dos fundos ajuda a compor o ambiente favorável aos negócios desses investidores estratégicos, que olham para a “floresta”, ou seja, para o potencial brasileiro como um todo, e têm visão de longo prazo. “Os chineses vêm se preparando há bastante tempo para aproveitar este momento de oportunidade, em que há uma menor concorrência de fundos de um lado, e as empresas precisando de capital de outro”, acrescenta.
Wainstein, que acaba de receber uma delegação de empreendedores chineses, observa também que o perfil do investidor chinês mudou, à medida que o foco se diversificou para além dos setores relacionados a interesses nacionais, como infraestrutura.
Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast afirmam que os grandes investimentos chineses ainda se concentram nos setores de energia elétrica, agronegócio e infraestrutura logística, mas o foco tem migrado para os segmentos de mineração, terras raras e energia solar. Esses últimos são, ao lado do setor automotivo, os que vêm sofrendo restrições dos Estados Unidos.
“A tensão na relação China-Estados Unidos está tirando mercado deles e o Brasil, na parte automotiva, tem sido uma ótima opção”, diz o líder de Latam e Finanças Corporativas do Brasil da Kroll Corporate Finance, Alexandre Pierantoni. O Brasil, em contrapartida, criou benefícios para importação de veículos eletrificados, que terminam no final deste ano, sendo este um outro gatilho para a produção local. As montadoras chinesas BYD e GWM já investiram bilhões em fábricas para fabricarem seus veículos no País.
Segundo Pierantoni, esse movimento está se ampliando e os chineses estão avançando para a cadeia de autopeças, onde se presencia uma “fortíssima” demanda. “Negócios ainda não estão sendo fechados, mas há muita prospecção dos chineses”, acrescenta. Pierantoni observa que a diversificação dos chineses em negócios de M&A não para por aí. Ele afirma que esses investidores olham empresas no entorno do setor de mineração, como equipamentos da linha amarela (máquinas pesadas) e explosivos. Também têm feito cheques menores do que o habitual para entrar em empresas que tenham conteúdo de tecnologia e inteligência artificial em segmentos nos quais já têm negócios, como agro e mineração.
Para o líder de fusões e aquisições (M&A) do escritório Machado Meyer, Guilherme Bueno Malouf, o bom relacionamento entre Brasil e China acaba contribuindo para que haja esse crescimento de negócios chineses. “As questões geopolíticas são relevantes, não são declaradas nas transações, mas sabemos que, quando há alinhamento ideológico, há maior demanda”, disse. Malouf lembra ainda que o Brasil é um mercado estratégico e acredita que parte da guerra de tarifas dos Estados Unidos é uma reação ao avanço da China na América Latina e no Brasil em particular.
“A China está a todo vapor”, diz a fundadora e CEO da consultoria de negócios internacionais NewCo, Martha Leonardis. Segundo ela, os investimentos chineses aumentaram US$ 2 bilhões no ano passado em relação a 2024, superando US$ 6 bilhões em 52 projetos.
Leonardis nota que a China é mais madura do que o Oriente Médio em termos de investimentos no Brasil e que os investidores do Oriente Médio não olham para o Brasil especificamente, mas para a região, com um viés de expansão. Outra diferença é que, ao contrário dos chineses, que preferem ter o controle das companhias, o interesse do investidor do Oriente está, na maioria dos casos, em fatia minoritária, mas com direito a assento em conselho. “Eles não têm capital humano para assumir o controle de uma companhia”, diz.
Apesar de estarem todos na mesma região, a forma de investir é diferente de um país para outro e orientada pelo momento que cada um vive, diz Leonardis. O conflito na região, por exemplo, fez alguns países se retraírem e olharem para desafios internos, entre eles Catar e Bahrein (que estava se abrindo a negócios no exterior), de acordo com ela. Também, os setores de hotelaria e imobiliário, que eram bastante procurados por alguns países do Oriente antes da guerra, saíram do mapa no atual contexto.
Do outro lado, Oman, que tem um fundo soberano de cerca de US$ 50 bilhões, e a Arábia Saudita estão muito ativos na busca de oportunidades, mas o foco sempre está em empresas que tenham interesse em investir também em seus países. “Eles dão subsídios e benefícios para esse investimento lá, em parceria com os fundos soberanos, e isso é interessante para empresas brasileiras que buscam expandir negócios fora do Brasil”, afirma. Segundo ela, um terço do valor da aquisição tem de ser direcionado para negócio no país de origem.
De acordo com ela, os setores que investidores de Omã e da Arábia Saudita têm prospectado são de infraestrutura, mineração, alimentação, terras raras e data centers, os dois últimos temas que entraram na agenda há poucos anos. “Estamos recebendo uma delegação de Omã que vem em novembro e já esteve em julho”, afirma.
Leonardis diz que o potencial de investimento de Abu Dhabi é muito grande, dado que seu fundo soberano tem US$ 1,7 trilhão, mas o número de negócios fechados é muito menor do que as prospecções que fazem. Mineração e infraestrutura são os setores de maior interesse, mas também com um viés de contrapartida local. “É uma região greenfield, onde tudo é uma oportunidade, e, se pudessem, não investiriam na empresa, mas levariam apenas a força intelectual e tecnológica”, afirma.
Em junho deste ano, o Abu Dhabi Ports Group, responsável por uma relevante infraestrutura marítima e de logística nos Emirados Árabes Unidos, adquiriu a Corredor Logística de Infraestrutura (CLI), no Porto de Itaqui, em São Luís (MA), por US$ 835 milhões (cerca de R$ 4 bilhões), marcando sua entrada nos portos brasileiros, dentro de uma estratégia de segurança alimentar.
Até o início de 2025, os fundos soberanos dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã) já acumulavam mais de US$ 14 bilhões investidos no Brasil, segundo levantamento do Sovereign Wealth Fund Institute (SWFI) feito a pedido do Estadão/Broadcast.
Leonardis nota que o número mostra que o capital do Golfo já tem peso material no Brasil, uma vez que só o estoque equivalia a pelo menos 1,2% de todo o estoque de investimento direto no país. Ao mesmo tempo, ele acrescenta que a estimativa é conservadora, já que cobre principalmente fundos soberanos e não captura integralmente empresas estratégicas, family offices, capital privado e operações sem valor público.
Publicado em 18/09/2026 e disponível em:




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