Empresas asfixiadas: com juro alto, dívida dispara e pressiona o caixa
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(O Globo) Número recorde de firmas recorre à recuperação extrajudicial. Endividamento somado de grandes companhias chega a R$ 1,7 trilhão, mostra levantamento.
Este mês, a Raízen, gigante de Sadia CBF BRASIL biocombustíveis, iniciou uma recuperação extrajudicial (REJ), buscando uma saída para R$ 65 bilhões em dívidas. É o maior caso já registrado no Brasil. Na véspera, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) tomara o mesmo caminho. Um número recorde de empresas no país está recorrendo a esse mecanismo para renegociar dívidas com credores financeiros.
Questões de gestão ou operacionais à parte, elas têm em comum as finanças asfixiadas pela combinação de um cenário econômico adverso, com taxa de juros nas alturas por um período prolongado, fazendo o custo do crédito disparar e comprimir o caixa.
O corte de 0,25 ponto percentual da Selic, a taxa básica de juros, anunciado na última quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, levou a taxa a 14,75% ao ano; ainda assim, é o nível mais alto desde agosto de 2006. A taxa de referência saiu de 2%, em agosto de 2020, para 15% em junho do ano passado.

Foi na bonança do juro a 2% que a tempestade começou a se formar. Empresas tomaram decisões de capital - investimentos e aquisições -, "pesando a mão"" no endividamento, diz Daniel Wainstein, CEO da Seneca Evercore. Com o salto da Selic, a dívida foi mordendo o caixa:
- Se a empresa não está tendo crescimento real, basicamente o faturamento está crescendo 5% (ao ano), enquanto a dívida, 20% ou perto disso. Uma hora a conta chega. E isso vai compondo, crescimento sobre crescimento. Obviamente, levou a uma situação de crise de liquidez para muitas empresas no Brasil. É um descasamento bem delicado.
Em 2025, 80 empresas recorreram à REJ, recorde da série histórica do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). E, neste ano, já foram sete casos.

- A recuperação extrajudicial se tornou a alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para estruturar esse processo com eficiência - diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes Advogados.
Para sanar as finanças, as empresas atuam em várias frentes, conta Daniella Fragoso, do BMA Advogados:
- Em cenários assim, para levantar recursos, as empresas têm de, além de renegociar dívidas, recorrer à venda de ativos, ter um aporte feito pelo controlador ou trocar dívida por ações da companhia.
Dívidas em alta
A dívida de 129 companhias no país subiu de R$ 1,12 trilhão, em 2020, para R$ 1,71 trilhão no ano passado, alta de 53%, segundo levantamento do consultor de dados financeiros Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria, a pedido do GLOBO. Se a Petrobras for retirada desse grupo, o salto em endividamento é de 83%, passando de R$ 727 bilhões para R$ 1,33 trilhão.

Foi nesse período que a taxa de juros foi de 2% para 15% ao ano, "evidenciando um ambiente financeiro significativamente mais restritivo para captação de recursos", diz ele:
- Mesmo com juros elevados, as empresas continuaram ampliando dívida. Parte disso está associada à necessidade de investimentos eà rolagem de passivos, mas reflete a diversificação das fontes de captação, especialmente no exterior - diz Rivero, destacando que o endividamento também é afetado pelas condições globais de crédito e dólar.
Outro fator pesando no caixa é o aumento da carga tributária, que passou de 31,2% do Produto Interno bruto (PIB), em 2022, para 32,3%.
- As projeções para 2026 são de contínuo crescimento, o que já foi ilustrado pelo recorde de arrecadação em janeiro, de R$ 325,8 bilhões. Estima-se que, até o fim deste ano, a carga tributária possa até ultrapassar 34% do PIB. Nunca foi tão alta e se soma a outros "gargalos" da rotina empresarial, como a alta do dólar e dos juros - diz Maristela Ferreira de Souza Miglioli, do Ciari Moreira Advogados.
Choque sistêmico
O choque dos juros no Brasil é sistêmico e afeta empresas de todos os setores - de saúde, a exemplo da Oncoclínicas, a siderurgia, com a CSN (leia mais abaixo) -, mas o grau de impacto em cada companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação, diz Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação de empresas. Ele lembra que a Selic a 15% significa 18% a 30% na ponta do tomador, dependendo do spread bancário.
Os casos da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, diz ele, expõem as ineficiências que eram mascaradas pelo dinheiro barato, com a Selic a 2%:
- No varejo, o impacto é duplo. O setor já opera com margens espremidas. Quando a Selic sobe, o custo para financiar capital de giro e estoques explode, ao mesmo tempo em que o consumidor perde poder de compra.
No agronegócio, as empresas se alavancaram para expandir enquanto a
conta fechava. Com a virada dos juros, aliada a intempéries climáticas,
quebras de safra e flutuação no preço das commodities, a geração de
caixa não acompanhou o pagamento do serviço da dívida. No ano
passado, foram 1.990 pedidos de recuperação judicial só no agro, salto de
56,4% ante 2024, segundo a Serasa Experian. É o maior patamar já
registrado desde 2021, início da série.
Para Fábio Astrauskas, da Siegen, consultoria em reestruturaçãо financeira, o desafio financeiro exige disciplina e visão estratégica:
- As dívidas somadas de GPA e Raízen são maiores do que o gasto informado pelo Pentágono (dos EUA) na guerra contra o Irã nos seus primeiros seis dias (US$ 11,3 bilhões, ou cerca de R$ 60 bilhões).
Mercado de capitais
Para Wainstein, o cenário reflete a volatilidade a que está sujeito o mercado brasileiro, e as empresas médias tendem a sofrer ainda mais:
- O índice de cobertura, que mede a capacidade de a empresa pagar seus custos de dívida (quanto menor o número, pior), nas médias empresas com ações em Bolsa atingiu 1,36x (vez), comparável ao de 2017. Nas maiores, que compõem o Ibovespa, está em 2,56x (vezes), menor nível desde 2020.

Com o aperto nas finanças, as empresas passaram a renegociar dívidas. Esse movimento conta com a ajuda do avanço de captação no mercado de capitais. Dados do FGV Ibre mostram que empréstimos bancários estão perdendo espaço para títulos de dívida privada, que já somam um terço do crédito total corporativo.
Guilherme Maranhão, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), avalia que o mercado de capitais ajudou a segurar o impacto dos juros altos na capacidade de pagamento e na qualidade creditícia das companhias:
- Houve emissões de debêntures (títulos de dívida). Também cresceu a negociação de recebíveis, com maior volume de emissões de Fidcs e debêntures securitizadas (como CRI e CRA).
Publicado em 22/03/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/22/empresas-asfixiadas-com-juro-alto-divida-dispara-e-pressiona-o-caixa.ghtml




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